O Maior Espetáculo do Mundo
Hugo Gonçalves
Oficina do Livro, Fevereiro 2004
214 pp.
Descrição:
Aquilo que muitos podem entender como ousadia – “quero ser escritor” – é no Hugo Gonçalves uma fatalidade. Um dia, por ousadia certamente, disse-lhe que fosse menos compulsivo na escrita e que vivesse mais. Mudou-se para Nova Iorque, para o umbigo do mundo. Fez o percurso de todos, o clássico, serviu à mesa e viveu o espetáculo permanente, em directo, non stop.
Este livro reflecte um trabalho árduo, minucioso, pensado sobre a escrita, a narrativa, a forma de contar a história e de construir personagens. É um primeiro livro, mas é também, já, um livro velho. Porque fala do que está no nosso imaginário, porque nos compele para a dureza da realidade: o sexo, a droga, as armas, a conspiração, a ilusão, a política, a demência, a fuga, a solidão, o make believe, a fachada que todos nós encontramos para enfrentar a vida. As histórias cruzam-se e são quase esmagadoras no seu pormenor.
A determinada altura um personagem diz: “Deus é o único equilibrista com talento para nos transportar no arame”. Hugo Gonçalves não escolheu fazer de Deus, fez um livro que bem podia ser um filme para nos lembrar que o arame existe.
Patrícia Reis, editora da revista Egoísta
O Circo de Hugo Gonçalves
Em O Maior Espetáculo do Mundo o trabalho narrativo é minucioso nos detalhes, os retratos das personagens precisos e poderosos. A estréia de um retratista de linhas e cores duras.
Dulce Furtado
“O maior espetáculo do mundo” é a estréia interessante do jornalista Hugo Gonçalves na prosa de longo fôlego, com um livro concebido em Nova Iorque e que – por natureza ou afinidade – surge profundamente marcado pela dinâmica e ritmo da narrativa norte-americana moderna. As coisas, neste “circo” de Hugo Gonçalves acontecem depressa, cadenciadamente depressa, com tomadas de fôlego rápidas e eficientes como as dos nadadores olímpicos com muitos metros de piscina para percorrer.
O trabalho narrativo é minucioso nos detalhes, os retratos das personagens precisos e poderosos, tanto mais ainda nos casos em que assentam praticamente num único avassalador pormenor – “os ministros africanos com dedos de anéis” – que inevitavelmente nos dão o resto todo da imagem. “O maior espetáculo do mundo” de Hugo Gonçalves, este espetáculo que toma conta da arena central do livro, abre para os nossos olhos uma sucessão de números de “freak-show” duros de serem vistos por evocarem com tanta clareza o “freak-show” da sociedade moderna real: o tráfico de armas, os líderes consecutivamente eleitos com luxuosos aviões privados e povos a morrer de fome, a droga como alimento para uma virtualidade impossível, o corpo usado como fonte de experiência e o sexo como moeda de troca, as políticas de bastidores enredando de igual forma as boas e as más intenções, a construção de celebridades em teias de mentiras que são tão apetecíveis de acreditar, e também estar sozinho, estar perdido, fugir porque é preciso deixar algo para trás e encontrar um refúgio, e a loucura já sem fronteira identificável separadora da dimensão real e ilusória.
O escritor, de 28 anos – membro da equipa fundadora da revista “Focus” e jornalista agraciado com o Prêmio Revelação do Clube Português de Imprensa – saiu de Portugal em 2001, rumo a descobertas para lá de fronteiras que aparecem nesta narrativa de uma ficção embebida do real. A acção espalha-se por um cosmopolita Nova Iorque em que candidatos a estrelas de cinema se mostram dispostos a vender rins – próprios – e úteros – das mães -, e por uma América do Sul em que infectados com o vírus da imunodeficiência adquirida são internados compulsoriamente em sanatórios onde lhes ensinam a viver com a doença e com a morte, e também por uma África onde mulheres, raptadas de suas aldeias para animarem ilustres visitantes estrangeiros em festas com quartos privados para sexo, são sentenciadas a serem enterradas até ao pescoço e apedrejadas na cabeça quando engravidam e têm filhos – “prova número um” apresentada em tribunal – desses mesmos ilustres visitantes estrangeiros.
E tudo bem visto, o filme que Hugo Gonçalves aqui nos conta nem é assim tão violento, tão mordaz, tão impossível de assistir quanto o “reality show” que ele também desenrola perante os olhos dos leitores. Encontra-se no jovem escritor, inevitavelmente, uma vontade de abrir os olhos a quem o lê. O blogue pessoal que assinava até bem há pouco tempo, aliás, chamava-se justamente “Abram os Olhos” e foi aí mesmo, numa entrada de Fevereiro de 2004, que lhe fomos encontrar a revelação da vontade que lhe dá quando olha o livro publicado – feito “objecto com capa, foto, excertos”. Hugo Gonçalves diz que lhe dá vontade de mudar palavras, mas também que sabe que não o pode fazer: o livro tornou-se numa “coisa qualquer necessária, lógica e inevitável”, muito diferente – “contraditória” à sua execução.
Review:
Público, 15 de Maio 2004
Escrita visual
Por Helena Vasconcelos
Elle, Abril de 2004
Hugo Gonçalves é um jornalista português de 27 anos. No seu primeiro livro, escrito em Nova Iorque, o universo das imagens é protagonista.
O Maior Espetáculo do Mundo, de Hugo Gonçalves começa como a abertura de um telejornal. A acção é rápida, brutal e condensada, dando a visão de um mundo caótico, corrupto, caricato e perverso, uma realidade que nos acompanha de manhã à noite e se tornou tão familiar como o ciclo das estações o era para nossos antepassados. Surpreendente – ou talvez não – para um escritor português de 27 anos que escreveu este livro em Nova Iorque, deixando-se contaminar pelo ambiente de uma América em colapso. Na sua qualidade de jornalista, Hugo Gonçalves é um observador nato, mas possui a inteligência fulgurante de tudo apreciar através das lentes distorcidas da imaginação contemporânea, infectada pelo universo da imagem. Para compreender a deslocação brutal do eu interior para a órbita de uma sociedade em tumulto, é interessante recriar a (possível) trajectória deste inequívoco talento que vem rasgar uma tradição intimista e reprimida na Literatura Portuguesa.
Hugo Gonçalves e sua escrita revelam um encontro surpreendente com uma tradição romanesca que já tem os seus pergaminhos e que se revitaliza, no jovem português, com maturidade e criatividade.
Em 1985 Tom Wolfe concluiu o seu primeiro romance, A Feira das Vaidades, onde contava a história de Sherman McCoy, jovem banqueiro e investidor que se vê envolvido nas áreas mais diversas do mundo nova-iorquino, fervilhante de movimento, tensão, agressividade, corrupção e duro materialismo. Wolfe, um jornalista brilhante, colaborador habitual da revista Rolling Stone, autor de alguns livros imprescindíveis para a compreensão da segunda metade do século XX, foi um dos papas do New Journalism, e conferiu ao romance a energia de uma experiência directa, musculada e vertiginosa que a América emulara através da obra e da personalidade de Ernest Hemingway.
A agilidade narrativa de Hugo Gonçalves e a sua capacidade para prender o leitor poderão, também, ter origem na sua actividade como jornalista (um outro exemplo em Portugal é o de Miguel Sousa Tavares com Equador), mas a sua destreza tem as suas raízes em autores como Bret Easton Ellis – principalmente no America Psycho com a sua orgia de celebração do vazio -, na obra de Jay Mc Inerney e de outros representantes do Brat Pack. Mas enquanto estes autore afirmavam o seu niilismo com bases psicológicas – enraizando-as na inexperiência da juventude e na negligência dos progenitores – Hugo Gonçalves aproxima-se mais de um autor como Martin Amis, com o seu humor corrosivo e delirante visão da sórdida vida moderna – claramente impressa em Money. A Suicide Note (1984) a história de John Self, egocêntrico consumidor compulsivo de cultura Pop, drogas, pornografia e adorador de Baal – e de Don deLillo com o seu actualíssimo Cosmopolis num registro mais sombrio e apocalíptico.
Em O Maior Espetáculo do Mundo, Hugo Gonçalves utiliza uma linguagem que vai buscar as suas fontes à representação visual, essencialmente cinematográfica. Na apresentação desenham-se as figuras emblemáticas da história que o autor se prepara para nos contar. É o universo da geometria fractual, no qual ‘o acto de bater asas de uma borboleta na China tem repercussões a milhares de quilómetros de distância e pode afectar todo um sistema’. Aqui, todos os actos de toda a gente que participa no ‘espetáculo’ a que o título com todas as suas implicações circenses, se refere ironicamente, estão relacionados entre si, não de uma forma poética, mas num registro que a globalização e a rapidez de comunicação implementaram nos relacionamentos. O coronel Lorenzano, Joseph, Aimee Ruby, o Presidente de uma República Africana e outros figurantes fazem acrobacias num mundo de esplendor de hotéis de luxo, residências faustosas, aviões privados, sexo, bebidas e drogas coabitando com a violência, o desprezo pela vida e o niilismo de uma pobreza instalada. (...)
A inclusão do guião de um filme a meio do livro é como a ficção de uma ficção, o inevitável corolário de uma época pós-pós-moderna em que a intervenção de um narrador se aproxima da função do coro das tragédias gregas que anuncia um tempo fracturado e disforme em que pragas, peste e destruição maciça – do homem, do tempo, da pólis – é a única realidade. (...) O tempo continua a sua marcha inexorável e os anos zero (ano menos 02 no início, ano menos 01 no final aproximam-se do final apoteótico no ano zero, dia zero, hora zero; tal como no filme de Wim Wenders que mostrava um relógio que dá as horas ao contrário num bar lisboeta, a acção converge para um grau nulo e o autor empurra-nos para esse momento de implosão. No Maior Espetáculo do Mundo a idéia de divindade ficou enterrada sob os escombros do 11 de Setembro e nas ruas de Kabul e de Bagdade. Hás quatro décadas, o poeta inglês John Davies escreveu: “Nós, que conhecemos todos os lugares do mundo e contemplamos os pólos, quando chegamos a casa não nos conhecemos a nós próprios e quedamo-nos no desconhecimento das nossas próprias almas”. Neste livro já não existe o caminho de volta a casa, e as almas há muito que não contêm a sua substância, os tais 21 gramas que o corpo perde no momento da morte.