
Elena Quintana
e Lucia Riff
Márcio Vassallo
Depois de alguns desencontros, depois de o telefone ficar calado no
sítio onde Elena Quintana mora (só para combinar com a quietude
do campo), depois de os computadores se rebelarem (só para contrariar
essa quietude), depois de uma rouquidão da nossa querida amiga entrevistada,
depois de um monte de tudo, aqui estamos. Meia-noite, no horário marcado,
vamos conversar pelo telefone. O sítio da Elena fica na cidade de Montenegro,
a uma hora de Porto Alegre. Lá, tem seis cachorros com insônia
e cheios de assunto. E antes mesmo de começarmos a entrevista, já
dá para saber que valeu a pena esperar. Elena é encantadora, simples
e brilhante, feito um verso do seu tio Mario.
Para você, em que sentido foi mais importante a renovação
do Mario com a editora Globo?
O mais importante dessa renovação de contrato é que está
sendo feito uma criteriosa organização da obra, uma revisão
completa, a partir das primeiras edições. A professora Tânia
Carvalhal do pós em letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul
é a responsável técnica dessa organização.
Indiquei o nome dela, porque o tio Mario sempre dizia: “Esta moça
conhece muito bem a minha poesia.” Ah, outro elemento importante é
a renovação estética dos livros, que sairão com
capas novas e coerentes. Além disso, todo o texto está sendo reformatado,
para dar mais conforto ao leitor. Ter uma agente feito a Lucia Riff, nesse aspecto,
é fundamental para mim. Eu confio totalmente nela e no que ela considera
melhor para a obra do Quintana. O Mario não queria ter agente. E aí
eu é que cuidava de tudo. Mario me dizia que eu era o braço esquerdo
e o corrimão dele.
Que
bela essa imagem da mulher que virou corrimão...
Viu só? Já fui corrimão, eu posso botar isso no meu currículo.
Você
devia botar essa experiência bem no alto do seu currículo. E do
seu currículo a gente vai para uma frase do Mario: “Vale a pena
estar vivo – nem que seja para dizer que não vale a pena.”
O que ele achava que mais valia a pena na vida?
Puxa, tio Mario gostava de tanta coisa que fica difícil dizer... Mas
acho que a poesia era o que mais valia a pena para ele. O meu tio dizia que
a poesia, na vida dele, primeiro tinha sido um agravante, depois se tornou um
atenuante, e por fim... Que palavra mesmo ele usava, ai, está me faltando
a palavra... Não é bem um passaporte para honrarias, mas é
alguma coisa assim. Meu Deus, não estou me lembrando da palavra que ele
usava, olha que horror. O fato é que passei a conviver com o tio Mario
diariamente quando ele tinha 73 anos de idade. Naquela época, o que mais
valia a pena para ele era descobrir alguém interessante no meio dos chatos.
O Mario gostava muito de moças inteligentes, e ficava encantado quando
encontrava gente com senso de humor.
Ele
gostava de visitar as pessoas?
Bem, ele gostava muito de visitar uma pessoa, mas sempre levando outra. Porque
aí ele podia ficar quieto e escutar o que os outros diziam. O tio Mario
gostava de escutar. Mas conforme brincavam com ele, conforme se sentia à
vontade, ele também falava bastante, ele se tornava muito falastrão.
Caso contrário, se estivesse pouco à vontade, ou desinteressado
na conversa, ele ficava muito dentro dele mesmo, completamente alheio. Em determinada
época, teve gente até que dizia que ele estava gagá. Não
era nada disso. Ele ficava era realmente alheio a tudo o que não tinha
vontade de ouvir, a tudo o que não tinha vontade de participar. Afinal,
eu estava lá para aparar tudo mesmo. E depois chegou um momento em que
ele não ia mais aos eventos e me mandava representá-lo. Além
disso, eu tratava com as editoras, sem conhecer quase nada de mercado editorial.
Fazia as coisas de uma forma muito intuitiva. O Mario não gostava de
falar no telefone. Eu é que era a porta-voz dele.
Por
que o seu tio não gostava de telefones?
Ele dizia que não gostava de intermediários. O tio Mario tem um
poema no qual diz que não gosta de padres e canudinhos de refresco. Ele
também não gostava de escrever à máquina. Tio Mario
achava que máquina de escrever era uma coisa muito distante. A máquina,
no fundo, também era uma intermediária entre ele e o papel. Por
isso escrevia à mão.
Depois
que ele morreu e te deixou a própria obra de herança, a responsabilidade
de tocá-la para frente te assustou?
Olha, eu fiquei desesperada só de pensar na idéia de
assumir uma responsabilidade dessas daquela forma, sozinha. Afinal, eu cuidava
de tudo, eu representava o meu tio perante todo mundo, mas ele sempre dava a
palavra final, sempre dava as opiniões dele, sempre dizia do que gostava
e do que não gostava. E assim seguíamos em frente, com erros e
acertos. Mas pensávamos juntos. Pensar em cuidar da obra dele sozinha
realmente me assustava demais. Assim, um dia, falando dessa minha agonia com
a Lucia Verissimo, esposa do Luis Fernando, ela me indicou a Lucia Riff, que
já era agente do Luis. E depois que a conheci, de fato, me entreguei
completamente à Lucia. Sabe, eu me sinto segura com ela. Acho que se
a BMSR existisse antes para a gente, muitas coisas teriam sido diferentes na
vida do Mario. Mas, apesar disso, nós nos divertimos muito. Ele dizia
que nós vivíamos num carrossel: cavalinho sobe, cavalinho desce.
Às vezes estávamos numa super boa de dinheiro, e de repente descambava
tudo. E isso acontecia por causa das opções do Mario. Ele dizia
que a melhor maneira de fazer um mal verso é fazê-lo sob encomenda.
As pessoas faziam muitas encomendas, mas ele não aceitava.
Para o Mario Quintana, fazer poemas por encomenda seria como ganhar
para suspirar?
Era isso mesmo... O Mario sempre dizia que a profissão dele não
era poeta, era jornalista. Ele ficava muito bravo quando diziam que a profissão
dele era poeta. Para ele, ser poeta era uma coisa da alma. Ele acreditava muito
nisso.
Pensamento
do Mario: “Quando abro cada manhã a janela do meu quarto/ É
como se abrisse o mesmo livro/ Numa página nova...” Ler e reler
o Quintana abre a gente por dentro sempre de uma maneira nova. Ter convivido
com ele durante tantos anos, assim tão de perto, mudou muito a sua maneira
de ler o poeta?
Conheci primeiro a obra, depois o poeta e por último o homem.
Explico: os meus pais morreram quando eu era muito menina, e fui criada pelos
oliveiras, que eram a família do meu pai. O meu único contato
com os quintanas era quando ia almoçar com meu avô, irmão
mais velho do tio Mario, e por meio da coluna O Caderno H, que saía todos
os sábados no jornal Correio do Povo. Com sete anos, me lembro de poesias
do tio Mario. Já na adolescência, eu ia às tardes de autógrafos
sempre com medo de que ele não me reconhecesse, coisa que nunca aconteceu.
Ficava pensando que aquele poeta que dava autógrafos para filas muito
grandes de pessoas era meu tio, e me orgulhava muito. Naquela época,
o CADERNO H (editora Globo) era meu livro de cabeceira. Eu sabia de cor muitas
frases e poemas dele. E ele era um poeta que falava realmente a minha língua.
Depois, quando me formei no curso de Arte Dramática, em Direção,
resolvi montar um espetáculo com as poesias dele. Então, parti
de duas frases do Quintana, para elaborar o roteiro: “Para que interpretar
um poema? Um poema já é uma interpretação”
e “A poesia não é uma associação de idéias,
é uma associação de imagens.”
A
repercussão desse trabalho foi boa?
Saíram ótimas críticas no Rio Grande do Sul sobre o meu
espetáculo A Estrela e a Sucata. E um dos títulos foi assim: “Sobrinha
de Mario Quintana descobre teatro na obra do poeta.” Era uma coisa mais
ou menos assim. E aí um amigo meu leu esse texto de outra maneira, com
outra entonação. Ele lia brincando que eu não era sobrinha
do Quintana, mas sim uma pequena sobra do Mario, uma sobrinha. Importante mesmo
foi que o tio Mario gostou da montagem. Esse foi o maior prêmio que eu
poderia receber. A partir daí, nós nos aproximamos mais. Ele tinha
na época uns 73 anos e me chamou para cuidar dele. Então, passei
a conviver diariamente com o Mario, que não era tão glamuroso
quanto o poeta, que era só o meu tio, que era só um homem, com
todas as suas inquietações, com todos os seus sonhos, com todas
as suas fragilidades.
“A
poesia não é uma associação de idéias, é
uma associação de imagens.” Para onde essa frase do Mario
mais te leva?
Essa frase dele me leva para uma lembrança. O tio Mario me dizia
que se não fosse jornalista, teria sido diretor de cinema. Então,
se pegares muitos versos na obra dele, tu podes imaginar cenas, podes imaginar
quadros. Numa das cenas do espetáculo que montei, o Mario me disse: “Isso
foi a melhor coisa que eu não escrevi.” Acho que quase todos os
poemas do Mario são feitos de imagens.
Olha o Mario aí de novo: “... na verdade esta vida só
tem dois encantos: o previsto e o imprevisto. Em que aspectos o Mario era mais
previsível, em que aspectos ele era mais imprevisível?
Acho que ele era sempre imprevisível. O previsível nele
era a sua alma.
De
carona nessa tua constatação, vamos para mais uma frase do Quintana:
“Dizer bobagens areja a alma.” Que bobagens mais arejavam a alma
do Mario?
Tio Mario morou em vários hotéis. Ele sempre se dava
bem com as camareiras, com os porteiros e com as telefonistas. E tinha um porteiro
que me dizia: “Dona Elena, a senhora devia anotar todas essas bobagenzinhas
que o Senhor Mario diz. Isso é poesia.” O Mario se divertia muito
com essa história, e às vezes me provocava: “Dá uma
olhada nessa bobagenzinha aqui.” Ai, as bobagenzinhas que o Mario escrevia
eram coisas tão simples, tão cotidianas, mas que arejavam a alma
dele e arejam até hoje a alma de muita gente. Eu devia ter anotado tudo
o que ele dizia. Aquele porteiro tinha razão.
Outras
bobagenzinhas sedutoras: “Jamais deves buscar a coisa em si,/a qual depende
tão somente dos espelhos./A coisa em si, nunca: a coisa em ti.”
O que seu tio mais buscava e não encontrava, e o que ele mais encontrava
sem buscar?
Tem um texto dele que diz: “Porque a poesia pura, mermão,
a poesia pura, não existe não.” A luta dele era sempre com
as palavras, com os textos e com o seu anjo da guarda. Acho que ele morreu sem
encontrar esse texto definitivo, até porque ele dizia que um poeta satisfeito
é um poeta acabado. E o que ele mais encontrava, sem buscar, eram os
chatos, que ele dividia em chatos perguntativos e chatos dissertativos.
O
que mais te aproximava do teu tio, o que mais te aproximava do poeta, o que
mais te aproxima até hoje dele, em todos os sentidos?
A obra, a obra, a obra.
Em
que aspectos a obra do Mario é mais sedutora para você?
Gosto em primeiro lugar da rebeldia na obra dele, e depois dos babados líricos
que são lindos. Ele dizia que os seus livros mais depurados foram ESCONDERIJOS
DO TEMPO e APONTAMENTOS DE HISTÓRIA SOBRENATURAL (ambos publicados pela
editora Globo).
Foram
os livros que ele mais mastigou?
Sim, teve um poema num desses livros, agora não me lembro qual, que demorou
40 anos para ser feito.
Esse
poema fez um verdadeiro esconderijo no tempo...
Foi sim... O tio Mario escrevia, deixava os poemas numa gaveta, olhava para
eles, olhava de novo, alguns ele guardava, outros ele rasgava. E dizia para
mim que não queria obras póstumas. Uma vez ele me disse que, depois
que morresse, se chegassem para mim poemas psicografados que eu não aceitasse,
porque ele não ia escrever depois de morto. E olha que já me apresentaram
seis cartas psicografadas. Mas não reconheci nenhuma delas como sendo
dele. Acho que se mudar de idéia e se resolver mesmo escrever do além,
ele me dará algum tipo de sinal, algum sinal que só eu reconheça.
Afinal, ele tinha muito cuidado com a sua obra. Não ia simplesmente mudar
de idéia sem me avisar. O tio Mario era tão cuidadoso com a própria
obra que fez um testamento deixando-a toda para mim, porque ele dizia que caso
a obra se dispersasse, não seria bem-cuidada. As herdeiras naturais dele
seriam as minhas tias, que ainda estão vivas. Não que ele não
quisesse deixar para as tias, ele só não queria que a obra fosse
dividida, ele queria que uma só pessoa mandasse na obra. Nem sei se eu
deveria usar o verbo mandar...
De
alguma forma, a obra também acaba mandando na gente?
Acho que sim... E a obra do tio Mario tem uma angústia, tem uma não-resolução
que me atrai muito. Afinal, somos tão inacabados. Diziam que ele era
um eterno menino, mas acho que isso é uma bobagem. O tio Mario era uma
pessoa rebelde. Se tivesse que colocá-lo numa fase da vida, seria na
adolescência. Ele dizia coisas muito duras de maneira suave. Ele tinha
uma cultura bárbara, mas detestava intelectualismos.
Que
tipo de intelectualismos ele mais detestava?
Uma vez, por exemplo, fomos a um encontro com um acadêmico. Não
vou dizer o nome dele, mas o fato é que fomos convidados para um cafezinho
e quando chegamos lá era um jantar para um monte de convidados. Aí
o tio Mario não queria ficar, ele queria ir embora. Não estávamos
preparados para um jantar daqueles, mas não dava para sair assim e ir
embora na mesma hora.
E
como é que vocês saíram dessa, ou melhor, como é
que vocês ficaram?
No final nós acabamos ficando mesmo, mas o tio Mario passou o tempo todo
dizendo horrores. Em cima da mesa, por exemplo, tinha um enorme faisão
de prata. Então, com um sorriso, ele me sugeriu: “Vamos roubar
essa marrequinha?” A pessoa que o meu tio mais cumprimentou e mais gostou
na festa foi o mordomo. Ah, um detalhe: quando terminou o jantar, colocaram
o Mario numa cadeira, com uma espécie de luz de interrogatório,
e um dos intelectuais da ABL disse assim: “Gostaríamos que o senhor
nos falasse sobre Proust.”
E
o Mario?
No mesmo instante ele olhou para mim e me disse: “Mas nós temos
que encontrar a Margarida. Nós marcamos com ela. Está na hora?”
Eu respondi: “Sim, está na hora.” E ele completou: “Então
não podemos ficar, temos que ir.” Aí ele se levantou, se
despediu do mordomo, falou com as outras pessoas muito rapidamente, e fomos
embora.
Como
é que o Mario se sentiu com tudo isso?
Ele se sentiu muito constrangido, foi muito desagradável. Quando saímos
de lá, o tio Mario me disse: “Eu não sou macaco sábio
para ficar em exposição.” Você acha que uma pessoa
assim poderia entrar para a ABL? Depois que saímos, eu estava super revoltada,
eu gritava de raiva das pessoas. Mas o Mario e uma amiga dele riam de mim. Ah,
sim, tem um detalhe: essa amiga nos levou de carro e foi junto conosco, porque
não conhecíamos o Rio de Janeiro. E quando chegamos com ela ao
jantar, havia vários papeizinhos na mesa, com os nomes dos convidados.
E a dona da casa disse: “Ai, eu detesto improvisar.”
Mais um pensamento do Quintana: “A preguiça é a
mãe do progresso. Se o homem não tivesse preguiça de caminhar,
não teria inventado a roda.” Que tipo de preguiça o Mario
mais gostava de exercitar?
Ele trabalhava noite adentro, porque de noite os telefones não
tocavam. Quando não estava escrevendo, via filmes a madrugada inteira.
Então, a preguiça mais gostosa era dormir até tarde. Dizia
que só ficava inteligente à tardinha. Mas ele também dizia:
“O que atrapalha a minha preguiça atrapalha o meu trabalho.”
Felizmente
não atrapalharam a preguiça do seu tio, quando ele escreveu este
poema: “Se as coisas são inatingíveis./Ora... não
é motivo para não querê-las. Que tristes os caminhos./Se
não fora a presença/distante das estrelas.” O que foi definitivamente
inatingível para o Quintana, mas que ele nunca deixou de querer?
Conhecer Paris nos anos 30.
Acima de tudo, o que era tão atraente para ele na década
de 30 em Paris?
Na época dele de garoto, todos queriam ir para Paris. Era um sonho que
ele tinha. Mas o meu tio não conseguiu ir, por problemas financeiros
da sua família. Acho que se tivesse ido, ele teria morrido em Paris,
de tanto beber, de tanto sair, de tanta boemia. Talvez se tornasse um autor
super reconhecido mundialmente, mas acho que morreria logo. É, acho que
sim.
E
ele chegou a conhecer Paris?
Muitos anos depois, ele foi convidado várias vezes para ir a Paris, com
tudo pago, via consulado, coisa e tal. Eu ainda insisti: vamos lá, vamos
finalmente conhecer Paris. Você não queria tanto conhecer Paris,
tio Mario? E ele me respondia: “Não, eu queria conhecer Paris naquela
época, agora não quero mais.”
Vamos
falar um pouco sobre outra vontade inatingível. Entrar para a Academia
Brasileira de Letras foi um dos desejos que Mario Quintana não realizou.
Até que ponto esse desejo passou com o tempo, até que ponto esse
desejo nunca passou?
O tio Mario só queria entrar para a ABL porque a mãe dele adorava
os seus versos de menino e dizia que um dia ele seria da Academia. Havia um
certo sentimentalismo nisso. Mas esse desejo passou, assim que ele desistiu
de se candidatar. Ele dizia que perder três vezes era trágico,
mas que perder quatro vezes seria cômico.
Você
revelou aquela história do jantar na casa de um acadêmico, recordou
a reação do Quintana, e se perguntou: “Será que uma
pessoa assim poderia entrar para a ABL?” Afinal, de fato, por que será
que a Academia resistiu tanto ao Mario?
De fato, acho que foi por sua irreverência, por sua dificuldade de se
enquadrar em escolas literárias, em formalidades, em partidos políticos.
Quase todos os acadêmicos acabavam perguntando para o tio Mario se ele
era de direita ou de esquerda, e ele respondia sempre que era pela América
Latina. Os imortais não gostaram disso. Só que ele dizia o que
pensava, e ele gostava de brincar. Quando alguém uma vez perguntou ao
Mario se ele era a favor do presidencialismo ou do parlamentarismo, ele disse
que era monarquista dissidente. E o partido monarquista foi atrás dele,
para conversar. Foi uma confusão. Até o príncipe veio visitar
o meu tio. Ninguém se deu conta de que o poeta tinha feito uma piada.
Depois ele esclareceu tudo, claro. Mas se divertiu com essa história.
Tio Mario gostava de se divertir com as coisas que aconteciam. Quando ele completou
80 anos, e inauguraram a Casa de Cultura Mario Quintana, em Porto Alegre, fizeram
muitas homenagens a ele. Foi então que o meu tio escreveu o livro VELÓRIO
SEM DEFUNTO. E ele brincava: “Com todas essas homenagens parece que já
estou morto.”
Aliás,
VELÓRIO SEM DEFUNTO traz um dos poemas mais deliciosos do Mario: “Seu
Glicínio Porteiro acha que rato depois de velho vira morcego./Não
o desiludas com o teu vão saber,/Respeita-lhe os queridos enganos:/Nunca
se deve tirar o brinquedo de uma criança/ - Tenha ela oito ou oitenta
anos!” Quais eram os brinquedos favoritos do Mario?
O Mario se divertia muito com filme de terror. Quanto mais horroroso, quanto
mais vermes e monstros, mais ele se divertia. Ele tinha um gosto muito apurado
para o cinema, mas os brinquedos favoritos mesmo eram os filmes de terror.
Quintana
dizia que não gostava de filme de terror colorido... “Afinal, os
pesadelos são em preto e branco”, ele escreveu uma vez.
Sim, ele gostava mais dos filmes em preto e branco. Mas depois também
passou a rir muito dos coloridos. E o engraçado é que o tio Mario
gostava de ver filme sem volume. Ele dizia que essa era uma maneira de saber
quem era bom ator ou não. Ah, outra coisa que divertia muito ele era
ter muitos lápis e canetas disponíveis, lado a lado, na mesa.
Ele gostava muito disso.
E
a fama, como é que ele lidava com a fama?
Depois que o tio Mario começou a aparecer na televisão, cada vez
mais gente vinha falar com ele. De vez em quando perguntavam: “O senhor
é o Carlos Drummond de Andrade?” Então, ele olhava para
a pessoa e respondia: “Às vezes.” E quando começaram
a pará-lo na rua para pedir autógrafo, principalmente em Porto
Alegre, o Mario não entendia nada daquilo. Como é que alguém
estava pedindo para ele autografar um papel? Ele só estava acostumado
a autografar livros. Então, depois que a pessoa ia embora, ele ria e
me perguntava: “Quem é?” E eu dizia: “Não sei,
tio, é um fã.”
Você
disse há pouco que, antes mesmo de se aproximar do seu tio, já
adorava as coisas que ele escrevia. Como é que você virou fã
do Mario Quintana?
Uma tia minha, a Celuta, me pôs em contato com a poesia. Ela me ensinou,
desde pequena, a procurar pelos textos do meu tio que eram publicados no Correio
do Povo. E eu queria seguir os passos do tio Mario, queria ser poeta, queria
ser jornalista, queria ser como ele. Afinal, eu sou leonina. Ah, mas isso não
tem nada a ver. Essa entrevista não é sobre mim...
É
sobre você também, claro. Por que você disse é leonina?
O tio Mario fez o mapa astral dele com uma velha astróloga, super respeitada
em Porto Alegre. E ela nos disse que tínhamos muitas coisas em comum.
Tio Mario nasceu no dia 30 de julho de 1906. E eu nasci no dia 31 de julho de
1955. E os nossos mapas realmente tinham uma correlação muito
grande. Tivemos um início de vida mais escuro, por exemplo, que foi clareando
depois. Tio Mario tinha o gênio, eu não tenho. Mas ainda acho que
temos muitas coisas em comum. E, vira e mexe, eu continuo falando dele assim,
no presente. Mas, puxa vida, você me perguntou uma coisa e eu acabei indo
lá pro Cafundó.
Mas
às vezes também é bom ir pro Cafundó...
Tem razão, você tem toda a razão.
Voltando
de lá, você continua trabalhando com direção de teatro?
Estou um pouco parada. Mas, na realidade, estou muito bem, resolvi vir para
o sítio, que era da tia Celuta. E agora estou cada vez mais voltada para
a obra do tio Mario.
Você
chegou a encenar outro trabalho do Quintana?
Sim, depois que ele morreu, eu dirigi e encenei ESCONDERIJOS DO TEMPO, no grupo
de teatro Oficina Perna de Pau. Encenamos esse espetáculo pelo interior
do Rio Grande do Sul, do Paraná, do Uruguai, da Argentina. E fazíamos
as nossas apresentações na rua. Mostrava os poemas dele, a vida
dele, e tudo mais. Agora a Casa de Cultura Mario Quintana me convidou para remontar
esse espetáculo. Mas não sei se vou montar lá não...
Por
quê?
Acho que poesia não puxa público para o teatro. Adoro trabalhar
com poemas. Mas um espetáculo de poesia tem que ser montado nas ruas.
É ali que conseguimos surpreender as pessoas, principalmente as que dizem
que não gostam do gênero. É ali que conseguimos pegar essas
pessoas pelo pescoço. E a poesia não tem que ser declamada, tem
que ser dita, ainda mais os poemas do tio Mario, que são quase como se
as coisas tivessem acontecido naquele minuto. Ele dizia que era preciso escrever
100 vezes um poema, para parecer que foi escrito de primeira.
Ele
dizia que o crime perfeito não deixa pistas.
Isso mesmo, você lembrou bem.
Você
disse que o Mario não gostava de intermediários. Ele aprovava
as pernas de pau do seu grupo de teatro? Perna de pau é uma intermediária?
Perna de pau é intermediária, tem razão. Mas ele gostava,
ele achava legal, ele dizia que a gente era meio doido, mas gostava muito daquele
trabalho. Cheguei a ter 11 atores em cena. Já imaginou? Todos na rua,
de perna de pau, dizendo os poemas do Mario? É na rua que as pessoas
levam trombada da poesia.
Seu
tio era um homem que dizia coisas de forma bem espontânea, e muitas vezes
surpreendente. Tinha gente que também levava trombada do Mario?
Ele dizia coisas que algumas pessoas consideravam falta de educação.
Às vezes eu não sabia onde me meter, mas ele dizia as coisas assim
mesmo, de forma bem direta. E ele tinha umas respostas muito engraçadas.
Numa entrevista, no Rio, perguntaram o que ele mais gostava na cidade, e ele
respondeu: “Os túneis, porque o resto parece cartão-postal.”
E eu disse para ele: “Tio Mario, que falta de educação,
isso é resposta que se dê?” E ele ria demais. Não
era por maldade. Era só o jeito dele de ver as coisas. O tio Mario tem
um poema que diz assim: “O poeta foi visto por um rio,/por uma árvore,/por
uma estrada...” O poeta não vê nada, o poeta é visto.
Mas, na verdade, é um jogo que ele faz. Ele gostava muito desse jogo,
dessas pequenas frases rudes, que nos provocam tanto.
Esse
poema do seu tio está no publicado pela editora Globo, no livro A COR
DO INVISÍVEL, certo? É um poema de esticar imagem, dá vontade
de andar de trem...
Eu também adoro, se chama Diário de Viagem. E é por aí.
Esse texto dele é muito jocoso, gera muitas imagens na nossa cabeça.
É uma cena bem de cinema, com um cara na janela, de repente, e a paisagem
passando lá fora.
Os
textos do Mario têm muito movimento, mesmo quando estão parados,
você concorda?
Concordo, é isso mesmo. Os textos dele têm esse estado de movimento.
E mexem com a gente.
Por
falar em movimento, desde que a gente começou a entrevista, tem um monte
de cachorro latindo no fundo da sua casa. Ou será que é a sua
casa que está no fundo dos latidos? Quantos cachorros você tem
aí no sítio, Elena?
Eles não param mesmo, só de vez em quando. Tenho quatro
cães pequenos, que são uns vira-latinhas, e também tenho
dois dinamarqueses, o Elvis e a Priscila.
E a plebe, que nem teve os nomes citados, convive bem com a nobreza?
Ai, criatura, eles todos convivem bem sim. Eu sempre quis ter um cachorro e
agora tenho seis. Gosto muito, de verdade.
O
Mario também gostava de cães?
Ele teve um cão, quando menino. Mas o meu tio gostava mesmo era de gato.
No andar em que o Mario morava, no Hotel Majestic, tinha um gato que subia por
umas casas velhas e entrava pela janela dele. Só que o tio Mario, apesar
de se dar super bem com as camareiras, não deixava muito elas entrarem
lá, só de vez em quando. Então, quando tudo ficava muito
bagunçado, trocavam o Mario para outro quarto. E ele ficava triste de
ter que deixar o quarto do gato.
Essa história do gato faz a gente lembrar de um poema do Mar